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Marcelo Oliveira
Doutor em Ciências Sociais

Venho de um tempo em que adoecer era um risco social. Saúde não era direito, era privilégio. Ir ao médico significava ter dinheiro, sobrenome ou indicação. Para o resto, sobrava a fila, a espera, o improviso e, muitas vezes, o silêncio. Esse passado, que não é remoto nem abstrato, começou a ser rasgado quando o Brasil decidiu escrever, na Constituição de 1988, uma frase ousada para um país tão desigual, “saúde é direito de todos e dever do Estado”. Assim nasceu o Sistema Único de Saúde, regulamentado pela Lei 8.080 de 1990, uma das mais potentes políticas públicas já concebidas neste território.

O SUS não é apenas uma engrenagem administrativa. É um pacto civilizatório. E sua base, muitas vezes invisível, é a Unidade Básica de Saúde, essa porta de entrada que organiza o cuidado, articula prevenção, diagnóstico, acompanhamento e encaminhamento. Ali começa quase tudo, ou deveria começar.

Por muito tempo, em Paripiranga, a lógica foi outra. Hospital era o destino para qualquer urgência, crise ou dor insistente. Foi assim comigo. Crises de pânico, coluna travada, covid. O hospital virou hábito, quase refúgio. Atendimento odontológico então, só em último caso, geralmente quando não havia alternativa além da extração. Dor resolvida, problema empurrado para o futuro, mas um futuro que sempre cobra juros.

Não fui exceção. Muitos penaram, peregrinaram, desistiram. Diagnósticos tardios, tratamentos interrompidos, sofrimento naturalizado. Lembro da inauguração da primeira UBS, em clima de festa e promessa, às vésperas de eleição. Havia médicos, medicamentos, dentista. Parecia um novo tempo. Mas a política miúda tratou de apagar o cenário. Profissionais sumiram, insumos evaporaram, portas fecharam. O passe de mágica não foi para fazer aparecer, foi para fazer desaparecer.

O tempo andou, como sempre anda. Nova gestão e a UBS do Centro passou a funcionar com equipe completa. O CAPS manteve suas atividades com regularidade e compromisso, o que não é pouco num país que ainda trata sofrimento psíquico como fraqueza moral. Vieram novos aportes. Abriu-se a UBS da Roça Nova. A Praça do Feijão cedeu espaço para outra unidade. O mapa da saúde básica começou, lentamente, a ganhar contornos mais justos.

Em 2026, com o calendário ainda cheio de páginas por virar, a reinauguração da Unidade de Saúde da Família do Povoado Lagoa Preta marcou algo maior do que uma obra concluída. O prédio revitalizado, climatizado, funcional. Mas o detalhe que muda vidas estava ali, discreto e revolucionário, uma sala odontológica equipada. Um gesto simples, quase banal para quem sempre teve acesso, mas profundamente transformador para quem nunca teve.

Cuidar da boca é cuidar do corpo inteiro. Isso não é opinião, é ciência. Infecções bucais estão associadas a doenças cardiovasculares, complicações metabólicas, agravamento de quadros inflamatórios e sofrimento crônico. Sem falar na dor cotidiana, no mau hálito, na vergonha de sorrir, no isolamento social silencioso provocado pela perda dentária. Prevenção odontológica é política de saúde pública séria, não luxo estético.

A Unidade de Saúde da Lagoa Preta está instalada numa área de adensamento populacional, com comércio ativo, circulação constante e vida pulsando. Ali, o investimento em saúde dialoga com outras ações estruturantes, asfaltamento, reforma de escola, quadra poliesportiva coberta. Não são obras soltas. É território sendo cuidado, ou seja, é o Estado se fazendo presente onde historicamente esteve ausente.

Humanizar a saúde não é apenas tratar bem. É garantir acesso, continuidade, vínculo e dignidade. É fazer com que o cidadão saiba que não está sozinho quando o corpo falha ou a mente vacila. A reinauguração dessa unidade não é um favor, mas o cumprimento de um dever constitucional. E, num país acostumado a confundir direito com benevolência, isso precisa ser dito em voz alta.

Porque quando a saúde básica funciona, a cidade respira melhor e, quando a política pública acerta o passo, a vida agradece.