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Marcelo Oliveira
Doutor em Ciências Sociais

Viver bem não significa ausência de doenças, afirma a Organização Mundial da Saúde. No entanto, no Ocidente, o capitalismo tratou de impor um filtro cruel às relações sociais; somente os produtivos importam. Manifestar qualquer sofrimento psíquico passou a ser sinônimo de fracasso, descarte, ou seja, abjeção.

Rotulados como improdutivos e vistos como fardos familiares, muitos foram empurrados para a tutela do Estado, que ergueu os hospícios, espaços de exclusão social travestidos de cuidado. Em 2006, com a Reforma Psiquiátrica, esses muros começaram a ruir. Foi um marco histórico, quando ciência, cuidadores e sociedade passaram a reconhecer um adoecimento em massa. Depressão, ansiedade, estresse deixaram de ser palavras restritas aos consultórios e passaram a circular no cotidiano de todas as classes sociais.

Medicamentos antes cercados de estigma passaram a ser prescritos em larga escala, muitas vezes sem uma escuta clínica qualificada e sem o devido acompanhamento terapêutico. A linha tênue entre sofrimento psíquico e adoecimento tornou-se mais visível, porém também mais medicalizada. Parcela significativa da sociedade passou a fazer uso contínuo de antidepressivos e psicofármacos classificados como tarja preta, o que, em muitos casos, produz não apenas efeitos colaterais, mas também impactos sociais profundos. O sujeito medicado, frequentemente rotulado como instável ou incapaz, vê-se empurrado para uma espécie de limbo da cidadania, enfrentando barreiras para permanecer ou retornar ao mercado de trabalho, sobretudo em cargos de liderança, decisão e alta responsabilidade.

A compreensão do adoecimento como problema social atravessa autores como Freud, Jung, Durkheim, Foucault e Bauman, sem esquecer Franco Basaglia, que questionou frontalmente o papel do hospício. No Brasil, Nise da Silveira revolucionou o cuidado ao introduzir arte, afeto, liberdade e até gatos como recursos terapêuticos. Um tapa poético na lógica manicomial, em que figuras como Arthur Bispo do Rosário não deixou por menos a sua genialidade na produção de peças de arte tão admiradas, mas frutos do inconsciente.

Lima Barreto, internado num hospício no Rio de Janeiro, transformou sua dor em literatura ao narrar os horrores em “Cemitério dos Vivos” (Planeta, 2004). Décadas depois, Daniela Arbex escancarou ao país o genocídio silencioso de Barbacena, em “Holocausto brasileiro” (Geração, 2013). Em 1979, o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton, já denunciava o cotidiano brutal dessas instituições, por grades, internos nus e relegados ao frio, submetidos a eletrochoques, enfim, tinham a sua identidade anulada, ao serem reconhecidos como “crônicos sociais”. Ali passaram os indesejáveis, mulheres grávidas fora do casamento, alcoólatras, homossexuais, pessoas pobres, pessoas desviantes. Um verdadeiro depósito humano.

A Reforma Psiquiátrica ainda precisa avançar, não apenas na desinstitucionalização, mas no fortalecimento dos CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) como espaços legítimos de acolhimento, reconstrução de vínculos e cidadania. Assim, o Janeiro Branco ganha força nesse contexto, ao convocar a sociedade para pensar políticas públicas, ações comunitárias e estratégias de prevenção no trabalho e nos territórios. Cuidar da mente é exercício de cidadania.

Janeiro começa como folha em branco. E folha em branco pede projeto. Precisamos pensar o bem-estar de forma integrada: corpo, mente, trabalho, sonhos e território. Não por acaso, a OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta o Brasil como o país mais ansioso do mundo. Vivemos engolidos por metas, jornadas exaustivas, cobranças domésticas, busca incessante por qualificação e status. Resultado: ansiedade, insônia, medicalização em massa e, em muitos casos terminam em autoextermínio.

Chegou a hora de libertar a sanidade do confinamento dos consultórios. Saúde mental também é política urbana, é praça cheia, calçadão ocupado, cultura em circulação, encontros que aquecem a vida. É direito à cidade, é existência pulsando para além das telas e das planilhas. Nesse sentido, o enfrentamento do adoecimento ganha concretude quando o próprio Judiciário reconhece a urgência da mudança ao desmontar o último bastião da internação compulsória, os manicômios judiciais. Trata-se de um avanço civilizatório que afirma a dignidade humana acima do controle, do medo e da exclusão.

Portanto, construir uma cultura de saúde mental passa, necessariamente, pela família, embrião de toda a percepção de humanidade e cidadania, a escola, pelas políticas públicas e pela participação ativa da sociedade. A Sociologia cumpre papel estratégico nesse processo ao escancarar desigualdades, questionar violências simbólicas e formar sujeitos críticos, capazes de enxergar além do óbvio. O Janeiro Branco não deve ser reduzido a uma campanha passageira; ele é um chamado permanente para repensarmos nossos modos de viver, trabalhar e nos relacionar. Troquemos o preconceito pelo acolhimento, a indiferença pelo convívio, porque ninguém está imune ao adoecimento. E quando ele chega, que possamos ser recebidos com cuidado, respeito e amparo para enfrentar as dores invisíveis da alma.