[*] Marcelo Oliveira
Morreu em 3 de agosto de 2025, em silêncio, o professor Cândido da Costa e Silva. Digo silêncio porque foi assim que viveu entre seus conterrâneos: despercebido. Poucos em Paripiranga sabiam da estatura do homem residente em Salvador. Talvez por falta de biblioteca, leitura e, o mais cruel, puro desconhecimento. Apesar de encarnar um dos maiores nomes da historiografia religiosa brasileira, enquanto mestre do tempo, da fé e da palavra.
Nascido em 19 de julho de 1935, na pacata Paripiranga, no sertão baiano em tempos de chão batido e missa de domingo, formou-se em Teologia no Seminário Central da Bahia, graduou-se em Filosofia na Universidade Católica de Salvador, tornou-se mestre em Ciências Sociais pela UFBA e doutor em História Social pela USP, mas nada disso foi currículo apenas, virou livro, alma em texto.
Cândido não escrevia como burocrata da academia, mas como quem reza, ouve o rumor das vozes esquecidas. Assim, em Os Segadores e a Messe, em Roteiro da vida e da morte: um estudo do catolicismo no sertão da Bahia, em História da Igreja no Brasil, sua pena se tornou enxada, colhendo não apenas dados, mas sensações, angústias e dilemas. Seus livros são mapas vivos da religiosidade sertaneja, da presença do clero no interior do Brasil, da força simbólica dos altares, procissões e sermões. Ele não fazia História da Igreja, mas da alma nordestina.
Sua linguagem é bordada, sem ser barroca. Um lirismo seco, à la Euclides da Cunha, e uma sensibilidade social de quem conhecia o sertão com os próprios pés. Leu os clássicos, sim. Mas ouviu os velhos e isso fez toda a diferença.
Na Bahia, formou gerações de historiadores, teólogos, padres e professores. Na Universidade Católica do Salvador (Ucsal), Universidade Federal da Bahia (Ufba) e Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), foi mestre de ofício e de vida. Sua ausência será sentida nos corredores, mas, mais ainda, nas páginas que ainda esperávamos que ele escrevesse.
A pergunta que fica é cruel e incômoda: por que tão poucos souberam quem ele foi? Como pode uma cidade não conhecer um dos seus grandes intelectuais? Talvez porque ainda estejamos construindo, literalmente, a casa do saber — a biblioteca municipal de Paripiranga — ou porque herdamos uma cultura em que os livros ainda não fazem parte da nossa paisagem afetiva. A glória silenciosa de Cândido nunca gritou por reconhecimento. Ainda assim, o sociólogo Antonio Santana Carregosa (Toninho) e a historiadora Ana Maria Ferreira de Oliveira, ambos seus conterrâneos, souberam, em vida, reconhecer seu valor. Trouxeram o ilustre filho de volta à sua terra natal e fizeram ecoar seus ensinamentos em seus próprios escritos, com a reverência de quem sabe que a história também se escreve com gratidão.
Mas aqui fica registrado: Cândido da Costa e Silva viveu como um intelectual de verdade, não para aparecer, mas para iluminar. Não para ser visto, mas para ver mais longe. Deixou-nos um legado de erudição, de compromisso ético com a história e de amor pela cultura do sertão. Morreu hoje, sim. Mas seus livros continuam vivos. E, quem sabe, um dia, sua cidade-natal ainda lhe erguerá um busto, ou, quem sabe, abrirá seus livros em voz alta, como quem lê um evangelho perdido.
Que sua memória seja semente e não se apague, ao inspirar novas gerações a verem, no sertão, não a ausência, mas a presença do saber.
Descanse, mestre Cândido!
[*] É doutor em Ciências Sociais, professor e editor.