Marcelo Oliveira
Tem coisas que não chegam batendo à porta. Entram devagar, quase em silêncio, como quem não quer incomodar. O Transtorno do Espectro Autista, o TEA, para muitas famílias, é assim. Não é um estrondo. É um sussurro. Um gesto repetido. Um olhar que não encontra o outro. Um tempo próprio, que não segue o relógio apressado do mundo.
E, de repente, o que parecia exceção começa a se revelar presença. Está na criança da vizinhança, no aluno da escola, no sobrinho, no filho, no neto. A ficha cai com um peso bonito e incômodo ao mesmo tempo. O humano nunca foi padrão. A gente é que insistiu em moldá-lo.
A ciência, com todos os seus tropeços históricos, vem aprendendo. A psiquiatria já não é apenas o lugar do rótulo. A psicologia já não é só o espaço da normalização. O serviço social amplia o campo e nos lembra que ninguém vive isolado, que o sujeito é também território, vínculo, contexto. Há avanço, sim. E é preciso reconhecer isso sem cinismo, mas também sem ingenuidade.
A própria noção de saúde, como propõe a Organização Mundial da Saúde, desloca o eixo. Saúde não é ausência de doença. Nunca foi. Saúde é possibilidade. É condição de existir com dignidade, com suporte, com pertencimento. É viver bem consigo e com o outro. Simples de dizer. Difícil de sustentar na prática.
Porque, sejamos honestos, o mundo ainda tem pressa de excluir. Sobretudo quando entram em cena os velhos marcadores sociais de estética, produtividade e “normalidade”. Quem escapa desse padrão encontra, quase sempre, resistência para existir em paz.
Durante muito tempo, o diferente foi empurrado para longe. Trancado, silenciado, medicalizado até caber numa lógica produtiva ou, quando nem isso era possível, descartado como “caso perdido”. A lógica manicomial não desapareceu. Apenas trocou de roupa. Às vezes aparece na escola que não acolhe. Na família que não entende. No sistema que não oferece suporte.
Mas há fissuras nessa velha muralha. E é nelas que a esperança respira.
O diagnóstico precoce não é uma sentença. É uma chave. Reconhecer sinais desde cedo amplia as possibilidades de intervenção qualificada, favorece o desenvolvimento de habilidades e fortalece a construção de autonomia. Ignorar sinais não protege ninguém. Só adia o cuidado.
E cuidado, aqui, não é palavra leve. Cuidado é rede.
Famílias precisam de orientação, escuta, apoio psicológico e suporte social. Não dá para romantizar o cansaço de quem cuida. Não dá para fingir que tudo se resolve com amor. Amor sem política pública vira exaustão.
A escola tem papel decisivo nisso tudo. Não basta matricular. Incluir não é colocar dentro da sala. É garantir mediação, formação docente, adaptação pedagógica, respeito ao ritmo. É entender que aprender não é um ato único nem homogêneo. Cada sujeito é um caminho.
E a sociedade, esse grande palco onde tudo se revela, precisa desaprender muita coisa. Precisa olhar sem estranhar, escutar sem julgar, conviver sem tentar corrigir o outro o tempo todo. Integração não é tolerância fria, é convivência real, enquanto presença humanizadora.
Aqui em Paripiranga, o trabalho desenvolvido pelo INASP aponta um caminho concreto. A sala voltada ao TEA, somada às ações permanentes nas unidades de saúde em que atua, não é apenas um serviço. É um posicionamento. É afirmar, na prática, que essas vidas importam, que esses sujeitos existem, que suas formas de ser não são erro. São expressão.
E isso, convenhamos, ainda é revolucionário.
Abril chega com campanhas, cores, símbolos. Tudo isso importa. Mas não basta iluminar prédios de azul se continuarmos apagando pessoas no cotidiano. A consciência que importa não é a do calendário, é a do encontro.
Talvez o maior desafio não seja entender o autismo. Talvez seja aceitar que o mundo não gira em torno de uma única forma de existir e, aí fica a pergunta, que não dá para evitar: você está preparado para conviver com o diferente ou ainda está tentando enquadrá-lo? Porque, no fim das contas, o TEA não revela apenas quem é autista, revela quem somos nós.